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sexta-feira, 26 de junho de 2015

TEORIA DA ALUCINAÇÃO - de O Livro dos Médiuns, Allan kardec

 TEORIA DA ALUCINAÇÃO
             111. Os que não admitem a existência do mundo incorpóreo e invisível pensam tudo explicar pela palavra alucinação. A definição dessa palavra é conhecida: quer dizer um engano, uma ilusão de quem pensa ter percepções que na realidade não tem (do latim allucinari, errar, formado de ad lucem). Mas os sábios ainda não deram, que o saibamos, a sua razão fisiológica.
            A Óptica e a Fisiologia não tendo mais segredos para eles, ao que parece, como não puderam explicar ainda a natureza  e a origem das imagens que se apresentam ao Espírito em determinadas circunstâncias? Eles querem tudo explicar pelas leis da matéria. Que o façam, mas que dêem, através dessas leis, uma teoria da alucinação. Boa ou má, seria pelo menos uma explicação.
            112. A causa dos sonhos não foi jamais explicada pela Ciência. Ela os atribui a um efeito da imaginação, mas não nos diz o que é a imaginação, nem como ela produz essas imagens tão claras e nítidas que às vezes nos aparecem. Isso é explicar uma coisa desconhecida por outra que não o é menos. Tudo fica na mesma.(11)
 Dizem tratar-se de uma lembrança das preocupações do estado de vigília. Mas, mesmo admitindo esta solução, que nada resolve, restaria saber qual é esse espelho mágico que conserva assim a impressão das coisas. Como explicar sobretudo as visões reais jamais vistas no estado de vigília, e nas quais jamais se pensou? Só o Espiritismo nos pode dar a chave desse estranho fenômeno que passa despercebido por ser muito comum, como todas as maravilhas da Natureza que menosprezamos.
            Os sábios não quiseram ocupar-se com a alucinação, mas quer seja real ou não, trata-se de um fenômeno que a Fisiologia deve poder explicar, sob pena de confessar a sua incompetência. Se um dia um sábio resolver dar, não uma definição, mas, uma explicação fisiológica desse fenômeno, teremos de ver se a teoria resolve todos os casos, se não omite os fatos tão comuns de aparições de pessoas no momento da morte, se esclarece à razão da coincidência da aparição com a morte da pessoa. Se fosse um fato isolado poder-se-ia atribuí-lo ao caso, mas como é bastante freqüente o acaso não o explica. Se aquele que viu a aparição houvesse tido a idéia de que a pessoa estava para morrer, ainda bem. Mas aparição é na maioria das vezes da pessoa de quem menos se pensa: a imaginação, portanto, nada tem com isso.
            Ainda menos se pode explicar pela imaginação o conhecimento das circunstâncias da morte, de que nada se sabia. Os partidários da alucinação dirão que a alma (se é que admitem a alma) tem momentos de superexcitação em que as suas faculdades são exaltadas? Estamos de acordo, mas quando o que ela vê é real, não se trata de ilusão. Se na sua exaltação a alma vê à distância, é que ela se transporta, e se a nossa alma pode se transportar, por que a da outra pessoa não se transportaria para nos ver? Que na sua teoria da alucinação queiram levar em conta esses fatos, não se esquecendo de que uma teoria a que se podem opor fatos que a contrariem é necessariamente falsa ou incompleta. Enquanto esperamos a sua explicação, vamos tentar emitir algumas idéias a respeito.(12)
            113. Os fatos provam que há aparições verdadeiras, que a teoria espírita explica perfeitamente, e que só podem negar os que nada admitem fora do organismo. Mas ao lado dessas visões reais existem alucinações, no sentido que se dá à palavra? Não se pode duvidar. Qual a sua origem? São os Espíritos que nos colocam na pista, pois a explicação nos parece estar inteira nas respostas às seguintes perguntas:
            1. As visões são sempre reais, ou são algumas vezes efeitos da imaginação? Quando vemos em sonho, ou de outra maneira, o Diabo ou outras coisas fantásticas, que portanto não existem não se trata apenas de imaginação?
        —  Sim, algumas vezes, quando a pessoa está chocada por certas leituras ou por estórias de feitiçaria, lembra-se delas e acredita ver o que não existe. Mas já dissemos também que o Espírito, através do seu envoltório semimaterial, pode tomar todas as formas para se manifestar. Um Espírito brincalhão pode aparecer com chifres e garras, se o quiser, para zombar da credulidade, como um Espírito bom pode aparecer de asas e de maneira radiosa.
    – Podem-se considerar como aparições os rostos e outras imagens que muitas vezes se mostram quando cochilamos ou simplesmente quando fechamos os olhos?     
    — Quando os sentidos se entorpecem o Espírito se libera e pode ver, perto ou à distância, o que não podia ver com os olhos. Essas imagens quase sempre são visões, mas podem ser também o efeito de impressões que a vista de certos objetos deixou no cérebro, que conserva os seus traços como conserva os sons. O Espírito liberto vê então no seu próprio cérebro as impressões ali fixadas como numa chapa fotográfica. A variedade e a mistura dessas impressões formam conjuntos bizarros e fugitivos, que se esfumam quase imediatamente, malgrado os esforços que se façam para retê-los. É a uma causa semelhante que se devem atribuir certas aparições fantásticas que nada tem de real e se produzem freqüentemente nas doenças.
    Admite-se que a memória é o resultado das impressões conservadas pelo cérebro. Mas por que estranho fenômeno essas impressões tão variadas e múltiplas não se confundem? Eis um mistério impenetrável, mas não mais estranho que o das ondas sonoras que se cruzam no ar e se conservam distintas. Num cérebro são e bem organizado essas impressões são nítidas e precisas; num estado menos favorável se diluem e se confundem; daí a perda de memória ou a confusão de idéias. Isso parece menos estranho quando se admite, como na frenologia, uma destinação especial para cada parte e mesmo para cada fibra do cérebro.
        As imagens transmitidas ao cérebro pelos olhos deixam ali a sua impressão, que permite lembrar-se de um quadro como se ele estivesse presente, embora se trate de uma questão de memória, pois nada se vê. Ora, num estado de emancipação a alma pode ver o cérebro e nele reencontra essas imagens, sobretudo as que mais a tocaram, segundo a natureza das suas preocupações ou disposições íntimas. É assim que reencontra a impressão das cenas religiosas, diabólicas, dramáticas, mundanas, das figuras de animais bizarros que viu outrora em pintura ou ouviu em narrações, porque estas deixam também as suas impressões. Assim, a alma vê realmente, mas apenas uma imagem fotográfica no cérebro.
        No estado normal essas imagens são fugitivas, efêmeras, porque todas as sessões cerebrais funcionam livremente. Mas na doença o cérebro se enfraquece, desaparece o equilíbrio geral dos órgãos cerebrais, somente alguns se mantêm ativos enquanto outros de certa maneira são paralisados. Decorre disso permanência de certas imagens que não se esvaem, como no estado normal, com as preocupações da vida exterior. Essa a verdadeira alucinação e a causa primária das idéias fixas.
            Como se vê, explicamos essa anomalia por uma lei fisiológica muito conhecida, que é a das impressões cerebrais. Mas foi sempre necessário fazer intervir a alma. Ora se os materialistas ainda não puderam dar uma solução satisfatória desse fenômeno é por não quererem admitir a alma. Por isso dirão que a nossa explicação é má, pois nos apoiamos num princípio que é contestado. Mas contestado por quem? Por eles, e admitido pela imensa maioria, desde que há homens na Terra. A negação de algumas não pode constituir-se em lei.
            Nossa explicação é boa? Damo-la pelo que possa valer na falta de outra, e, se quiserem, a título de simples hipótese, à espera de melhor. Como está, pode explicar todos os casos de visões? Certamente não mas desafiamos todos os fisiologistas a apresentarem um que, segundo as suas opiniões exclusivas, expliquem todos. Porque nada apresentam quando pronunciam as palavras sacramentais de superexcitação e exaltação. Pois se todas as teorias sobre a alucinação são insuficientes para explicar todos os fatos, é que há no caso algo mais do que a alucinação propriamente dita. Nossa teoria seria falsa se a aplicássemos a todos os casos de visões, pois alguns poderiam contradizê-la. Pode ser justa, se aplicada a apenas alguns efeitos.(13)


(1) O respeito às leis naturais é um dos princípios espíritas. A mediunidade, como todas as faculdades humanas, deve desenvolver-se normalmente, nunca de maneira forçada. (N. do T.)

(2) O perispírito só aparece integral nas visões, compreendendo-se o termo visõescomo manifestações visuais do Espírito em corpo inteiro. Nas outras formas de manifestações ele apenas projeta as imagens que deseja, como nesse caso das chamas. (N. do T.)

(3) Servius Tullius, sexto rei de Roma (578-534 a.C.) nasceu escravo de Tarquínio Prisco, que o fez educar, e sucedeu a ele no trono por decisão popular. Ampliou Roma, aumentou suas muralhas, estruturou as classes e realizou grandes obras. Era um predestinado. (N. do T.)
(4)  Essa afirmação não contraria o princípio espírita da evolução. Pelo contrário, o endossa, mostrando apenas que o Espírito (a palavra escrita assim, com “E” maiúsculo, representa o ser espiritual do homem) não pode encarnar no reino animal. Ver Metempsicose, nº 611 a 613 de O Livro dos Espíritos.(N. do T.)
(5) Kardec se refere à arte vulgar de interpretação dos sonhos e não aos processos psicológicos hoje empregados na terapêutica. Quanto a esses processos, referem-se apenas a um aspecto dos sonhos, realmente significativo do ponto de vista psicológico, mas muitas vezes mal interpretado, por falta de visão de conjunto e que escolas como a de Karl Jung já procuram atingir. (N. do T.)

(6) Entre outros, o Dr. Home. (A esta nota de Kardec devemos acrescentar os fatos atuais constantes de experiências e observações parapsicológicas. Ver, entre outros. Canais Ocultos da Mente de Louisa Rhine). (N. do T.)

(7) Entre esses motivos figuram as condições da prova por que passam a pessoa ou o Espírito, os inconvenientes emocionais para a pessoa, as complicações familiais que poderia resultar e assim por diante. (N. do T.)

(8) As pesquisas parapsicológicas da atualidade confirmam plenamente essa explicação. A escola do Rhine sustenta a inexistência de barreiras físicas para a transmissão do pensamento e a percepção à distância e a escola russa tentou em vão provar o contrário. (N. do T.)

(9) Moscas amauróticas são pontos negros que aparecem na visão por motivo de atrofia do nervo óptico, produzindo cegueira parcial ou total sem prejuízo do globo ocular. Amaurose ou gota-serena. (N. do T.)
(10) A posição de Kardec é inegavelmente científica. Essa teoria do perispírito não foi desmentida nestes cem anos. Pelo contrário, as hipóteses psicológicas atuais confirmam essa teoria no campo da Parapsicologia. Vejam-se as hipóteses de Carington sobre as estruturas de sensas e psicons, as de Soal, Broad, Tishner e outros. (N. do T.)   

(11) As explicações atuais ainda são incompletas. Somente com as pesquisas parapsicológicas a Ciência começou a avançar, recentemente, no rumo certo que o Espiritismo indicou há mais de um século: às razões psicofisiológicas é necessário acrescentar as espirituais. (N. do T.)

(12) Kardec já mostrava, há cem anos, a insuficiência das hipóteses do inconsciente excitado com que ainda hoje alguns adversários, travestidos de parapsicólogos, tentam explicar fenômenos tipicamente espirituais. Veja-se a precisão da frase: a alma tem momentos de superexcitação em que as suas faculdades são exaltadas. Os teóricos atuais, ainda confirmando a previsão de Kardec, referem-se à mente, procurando excluir a alma dos fenômenos para não dar margens às interpretações espíritas. Mas a verdade é que as teorias deste livro estão sendo confirmadas dia a dia nas pesquisas parapsicológicas, queiram ou não queiram os contraditores. (N. do T.)

(13) As teorias atuais da alucinação referem-se em geral a alterações do sistema nervoso, com excitação dos neurônios sensoriais, especialmente os da visão e da audição. Insiste-se na explicação fisiológica de todos os casos. Mas a recente aceitação científica dos fenômenos paranormais abriu perspectivas nesse campo. Os casos referidos por Kardec são aceitos como de natureza extrafísica por toda a escola psicológica de Rhine e mesmo as escolas fisiológicas admitem a veracidade das percepções à distância, da transmissão do pensamento, das previsões e da retrocognição ou visão do passado. Pratt e outros, nos Estados Unidos, pesquisam com o nome de fenômenos theta os casos de comunicação espírita. A alma, como afirma Kardec, mostra-se novamente indispensável à formulação de uma teoria satisfatória da alucinação. (N. do T.)

domingo, 31 de maio de 2015

DEVE-SE CONVENCER ALGUÉM A TORNAR-SE ESPÍRITA? - de O Livro dos Médiuns, Allan kardec


DEVE-SE CONVENCER ALGUÉM 
A TORNAR-SE ESPIRITA?

29) Os meios de convicção variam extremamente, segundo os indivíduos. O que persuade a uns não impressiona a outros. Se um se convence por meio de certas manifestações materiais, outro por comunicações inteligentes, a maioria é pelo raciocínio. Podemos mesmo dizer que, para a maior parte dos que não estão em condições de apreciá-los pelo raciocínio, os fenômenos materiais são de pouca significação. Quanto mais extraordinários são esses fenômenos, afastando-se bastante das leis conhecidas, maior oposição encontram. E isso por um motivo muito simples: é que somos naturalmente levados a duvidar daquilo que não tem uma sansão racional. Cada qual o encara a seu modo e dá sua explicação particular: o materialista descobre uma causa física ou uma trapaça; o ignorante e o supersticioso, uma  causa diabólica ou sobrenatural. Entretanto, uma explicação antecipada tem o efeito de destruir as idéias preconcebidas e mostrar, se não a realidade, pelo menos a possibilidade do fato. Compreende-se antes de ver, pois desde que aceitamos a possibilidade, três quartos da convicção foram realizados.
   30. Será útil procurar convencer um incrédulo obstinado? Já dissemos que isso depende das causas e da natureza da sua incredulidade. Muitas vezes, nossa insistência em persuadi-lo o leva a crer na sua importância pessoal, que é uma razão para mais se obstinar. Aquele que não se convence pelo raciocínio nem pelos fatos, deve ainda sofrer a prova da incredulidade. Devemos deixar à Providência o cuidado de encaminhá-lo a circunstâncias mais favoráveis. 
Há muita gente que só deseja receber a luz, para estarmos perdendo tempo com os que a repelem. Dirigi-vos, pois, aos homens de boa vontade, cujo número é maior do que se pensa, e o exemplo destes, multiplicando-se, vencerá mais facilmente as resistências do que as palavras.
Ao verdadeiro espírita nunca faltará oportunidade de fazer o bem. Há corações aflitos a aliviar, consolações a dispensar, desesperos a acalmar, reformas morais a operar. Essa é a sua missão e nela encontrará a verdadeira satisfação. 
O Espiritismo impregna a atmosfera: expande-se pela própria força das circunstâncias e porque torna felizes aqueles que o professam. Quando os seus adversários sistemáticos o ouvirem ressoando ao seu redor, entre os seus próprios amigos, compreenderão o isolamento em que se encontram e serão forçados a calar ou a se renderem.
   31. Para se proceder, no ensino do Espiritismo, como se faz nas ciências ordinárias, seria necessário passar em revista toda a série de fenômenos que podem produzir-se, a começar dos mais simples até chegar, sucessivamente, aos mais complicados. Ora, isso é impossível, porque não se pode fazer um curso de Espiritismo experimental como se faz um curso de Física ou de Química. Nas Ciências Naturais opera-se sobre a matéria bruta, que se manipula a vontade e quase sempre se consegue determinar os efeitos. 
No Espiritismo, tem-se de lidar com inteligências dotadas de liberdade e que provam, a cada instante, não estarem sujeitas aos nossos caprichos. É necessário, pois observar, esperar os resultados e colhê-los na ocorrência.
     Por isso declaramos energicamente que: todo aquele que se vangloriar de obtê-los à vontade não passa de ignorante ou impostor. Eis porque o verdadeiro Espiritismo jamais servirá para exibições nem subirá jamais aos palcos. É mesmo ilógico supor que os Espíritos se entreguem a exibições e se submetam à pesquisa como objetos de curiosidade. Os fenômenos, por isso mesmo, podem não ocorrer quando mais os desejamos ou apresentar-se de maneira muito diversa da que pretendíamos. Acrescentemos ainda que, para obtê-los, necessitamos de pessoas dotadas de faculdades especiais, que variam ao infinito, segundo a aptidão de cada indivíduo. Ora, sendo extremamente raro que uma mesma pessoa tenha todas as aptidões, a dificuldade aumenta, pois, seria necessário dispormos sempre de uma verdadeira coleção de médiuns, o que não é possível.
            É muito simples o meio de evitar estes inconvenientes. Basta começar pela teoria. Nela, todos os fenômenos são passados em revista, são explicados e se pode conhecê-los e compreender a sua possibilidade, as condições em que podem ser produzidos e os obstáculos que podem encontrar. Dessa maneira, qualquer que seja a ordem em que as circunstâncias nos fizerem vê-los, nada terão que possa surpreender-nos. E há ainda outra vantagem: a de evitar muitas decepções ao experimentador. Prevenido quanto às dificuldades, pode manter-se vigilante e poupar-se das experiências à própria custa.
    Desde que nos ocupamos de Espiritismo foram tantas as pessoas que nos acompanharam, que seria difícil presenciar o seu número. Entre elas, quantas permaneceram indiferentes ou incrédulas diante dos fatos mais evidentes, só se convencendo mais tarde através de uma explicação racional. Quantas outras foram predispostas a aceitar por meio do raciocínio; e quantas, afinal, acreditaram sem nada terem visto, levados unicamente pela compreensão. Falamos, portanto, por experiência, e por isso afirmamos que o melhor método de ensino espírita é o que se dirige à razão e não aos olhos. É o que seguimos em nossas lições, do que só temos que nos felicitar. 
      

CATEGORIAS DE INCRÉDULOS E O ESPIRITISMO - de O Livro dos Médiuns, Allan Kardec


ESPIRITISMO ENQUANTO CIÊNCIA, 

FILOSOFIA E MÉTODO E 

SUAS CATEGORIAS DE INCRÉDULOS



            O Espiritismo é toda uma Ciência, toda uma Filosofia. Quem desejar conhecê-lo seriamente deve pois, como primeira condição, submeter-se a um estudo sério e persuadir-se de que, mais do que qualquer outra ciência, não se pode aprendê-lo brincando.

O Espiritismo, se relaciona com todos os problemas da Humanidade. Seu campo é imenso e devemos encará-lo sobretudo quanto às suas conseqüências. A crença nos Espíritos constitui sem dúvida a sua base, mas não basta para fazer um espírita esclarecido, como a crença em Deus não basta para fazer um teólogo. Vejamos, pois, de que maneira convém proceder no seu ensino, para levar-se com mais segurança à convicção.
                       No Espiritismo, a questão dos Espíritos está em segundo lugar, não constituindo o seu ponto de partida. E é esse, precisamente, o erro em que se cai e que acarreta o fracasso com certas pessoas. Sendo os Espíritos simplesmente as almas dos homens, o verdadeiro ponto de partida é então a existência da alma. Como pode o materialista admitir a existência de seres que vivem fora do mundo material, quando ele mesmo se considera apenas material? Como pode crer na existência de Espíritos ao seu redor, se não admite seu próprio Espírito? Em vão se amontoarão aos seus olhos as provas mais palpáveis. Ele contestará a todas elas, porque não admite o princípio.
            Todo ensino metódico deve participar do conhecido para o desconhecido. Para o materialista, o conhecido é a matéria. Parti, pois, da matéria e tratai de lhe demonstrar, antes de tudo, que há nele próprio alguma coisa que escapa às leis materiais. Numa palavra: antes de torná-lo espírita procurai fazê-lo ESPIRITUALISTA. Mas, para isso, é necessária outra ordem de fatos e se deve proceder, por outros meios, a uma forma especial de ensino. Falar-lhe de Espíritos antes que ele esteja convencido de ter uma alma é começar pelo fim, pois ele não pode admitir a conclusão se não aceita as premissas.
            Antes, pois, de tentar convencer um incrédulo, mesmo por meio dos fatos, convém assegurar-se de sua opinião sobre a alma, ou seja, se ele crê na sua existência, na sua sobrevivência ao corpo, na sua individualidade após a morte. Se a resposta for negativa, será tempo perdido falar-lhe dos Espíritos. Eis a regra. Não dizemos que não haja exceção. Mas nesse caso deve existir outra razão que o torne menos refratário.
INCRÉDULOS POR SISTEMA
       20. Devemos distinguir duas classes de materialistas: na primeira estão os que o são por sistema. Para eles não há dúvida, mas a negação absoluta, segundo a sua maneira de raciocinar. Aos seus olhos o homem não passa de uma máquina enquanto vivo, mas que se desarranja e depois da morte só deixa o esqueleto. Seu número é felizmente bastante restrito e em parte alguma representa uma escola abertamente declarada. Não precisamos acentuar os deploráveis efeitos que resultariam para a ordem social da vulgarização de semelhante doutrina. Estendemo-nos suficientemente a respeito em O LIVRO DOS ESPÍRITOS (nº 147 e parágrafo III da Conclusão).
     Quando dissemos que a dúvida dos incrédulos cessa diante de uma explicação racional, é necessário excetuar os materialistas radicais, que negam toda potência e qualquer princípio inteligente fora da matéria. A maioria se obstina nessa opinião por orgulho e acha que deve mantê-lo por amor próprio. Persistem nela apesar de todas as provas contrárias porque não querem ficar por baixo. Nada se tem a fazer com eles. Nem se deve acreditar na falsa expressão de sinceridade dos que dizem: Fazei-me ver e acreditarei. Há os que são mais francos e logo dizem: Mesmo se eu visse não acreditaria.
     
INCRÉDULOS POR INDIFERENÇA
21. A segunda classe de materialistas, muito mais numerosa, compreende os que o são por indiferença, e, podemos dizer, por falta de coisa melhor, já que o materialismo real é um sentimento antinatural. Não o são deliberadamente e o que mais desejam é crer, pois a incerteza os atormenta. Sentem uma vaga aspiração do futuro, mas esse futuro lhes foi apresentado de maneira que sua razão não pode aceitar, nascendo daí a dúvida, e como conseqüência da dúvida, a incredulidade. Para eles, pois, a incredulidade não se apóia num sistema. Tão logo lhes apresenteis alguma coisa de racional, eles a aceitarão com ardor. Esses podem nos compreender, porque estão mais próximos de nós do que poderiam supor.
     Com os primeiros, não faleis de revelação, nem de anjos ou do Paraíso, pois, não compreenderiam. Mas colocai-vos no seu próprio terreno e provai-lhes, primeiro, que as leis da Filosofia não podem explicar tudo: o resto virá depois. A situação é outra quando não se trata de incredulidade preconcebida, pois nesse caso a crença não foi totalmente anulada e permanece como germe latente, asfixiado pelas ervas daninhas, que uma centelha pode reanimar. É o cego a que se restitui à vista e que se alegra de rever a luz, é o náufrago a que se atira uma tábua de salvação.

INCRÉDULOS DE MÁ VONTADE

            22. Ao lado dos materialistas propriamente ditos há uma terceira classe de incrédulos que, embora espiritualistas, pelo menos no nome, não são menos refratários ao Espiritismo: são os incrédulos de má vontade. Esses não querem crer, porque isso lhes perturbaria o gozo dos prazeres materiais. Temem encontrar a condenação de sua ambição, do seu egoísmo e das vaidades humanas com que se deliciam. Fecham os olhos para não ver e tapam os ouvidos para não ouvir. Só podemos lamentá-los.

                    INCRÉDULOS INTERESSEIROS OU DE MÁ FÉ
     
23. Somente para lembrá-la, falaremos de uma quarta categoria a que chamaremos de incrédulos interesseiros ou de má fé. Estes sabem muito bem o que há de certo no Espiritismo, mas o condenam ostensivamente por motivos de interesse pessoal. Nada temos a dizer deles nem a fazer com eles. Se o materialista radical se engana, tem ao menos a desculpa da boa fé; podemos corrigi-lo, provando-lhe o erro. Neste último, há uma determinação contra a qual se esboroam todos os argumento. O tempo se encarregará de lhe abrir os olhos e lhe mostrar, talvez á sua própria custa, onde estavam os seus verdadeiros interesses. Porque, não podendo impedir a expansão da verdade, eles serão arrastados pela correnteza, juntamente com os interesses que pensavam salvaguardar.      

                                 INCRÉDULOS POR COVARDIA

    24. Além dessas categorias de opositores há uma infinidade de variações, entre as quais se podem contar os incrédulos por covardia, que terão coragem quando verificarem que os outros não foram prejudicados; os incrédulos por escrúpulo religioso, que um ensino esclarecido fará ver que o Espiritismo se apóia nos próprios fundamentos da Religião e respeita todas as crenças, tendo como um de seus efeitos despertar os sentimentos religiosos nos descrentes, fortalecendo-os nos vacilantes; os incrédulos por orgulho, por espírito de contradição, por negligência, por leviandade, etc. etc.

                                 INCRÉDULOS POR DECEPÇÃO
  25. Não podemos esquecer uma categoria que chamaremos de incrédulos por decepção. Abrange os que passaram de uma confiança exagerada à incredulidade, por terem sofrido desilusões. Assim, desencorajados, abandonaram tudo e tudo rejeitaram. São como aquele que negasse a boa fé por ter sido enganado. São ainda as conseqüências de um estudo incompleto do Espiritismo e da falta de experiência. Aquele que é mistificado por Espíritos, geralmente é porque lhes fez perguntas indevidas ou que eles não podiam responder, ou porque não estavam bastante esclarecidos para distinguir a verdade da impostura. Muitos, aliás, só vêem o Espiritismo como uma nova forma de adivinhação e pensam que os Espíritos existem para ler a buena-dicha. Ora, os Espíritos levianos e brincalhões não perdem a oportunidade de se divertirem á sua custa: é assim que anunciarão casamentos para as moças; honrarias, heranças e tesouros ocultos para os ambiciosos, e assim por diante. Disso resultam, freqüentemente, desagradáveis decepções, de que o homem sério e prudente sabe sempre se preservar.
                                                 VACILANTES                
   26. Uma classe muito numerosa, a mais numerosa de todas, mas que não poderia figurar entre os opositores, é a dos vacilantes. São geralmente espiritualistas por princípio. Na sua maioria tem uma vaga intuição das idéias espíritas e desejam alguma coisa que não podem definir. Falta-lhes apenas coordenar e formular os seus pensamentos. O Espiritismo aparece-lhes como um raio de luz: é a claridade que afugenta as névoas. Por isso o acolhem com sofreguidão, pois ele os liberta das angústias da incerteza.